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Filme inspirado em Romeu e Julieta une hip hop, street dance e violência urbana

 

Cheguei ao cinema para ver Maré – Nossa História de Amor (2008) sabendo que era o novo longa da Lúcia Murat (Quase dois irmãos) tinha no elenco Marisa Orth e era livremente inspirado em Romeu e Julieta. Ah e que o pôster, enrugado como um lambe-lambe, mostrava meio rosto de uma menina e um cara desfocado. As luzes foram apagadas e veio aquela inundação de logos aparecendo e sumindo, mostrando os patrocínios e apoios sem os quais não seria possível transformar o projeto em realidade.

 

E foi então que começou o meu desespero. O tal menino do pôster aparece cantando “Minha Alma”, d’O Rappa, e inicia uma descida do morro. A cada “quebrada”, outros jovens vão pulando na sua frente e começam a dançar. Não uma dança cotidiana, mas algo coreografado. Um típico musical hollywoodiano em plena favela do Rio de Janeiro. Sabe quando dizem que a pessoa está prestes a morrer vê um flashback passando na sua frente? Foi mais ou menos isso, mas o filminho que eu vi não foi o da a minha vida, mas sim Ó Paí, Ó (2007) – e por isso me desesperei!

 

Por sorte, o pesadelo durou pouco. Ao fim dos créditos iniciais a música e as coreografias rarearam um pouco, dando lugar ao drama imortalizado por Shakespeare e que é atual até hoje. Do lado vermelho está Analídia (Cristina Lago), filha de um dos traficantes locais, que está cumprindo pena, mas continua no comando. Entre os azuis está Jonatha (Vinicius D’Black), aspirante a MC do morro da Maré e irmão do maior rival vermelho.

 

A história de amor entre os dois começa em um baile funk, ao som de Deize Tigrona, que vira uma batalha de dança entre vermelhos e azuis, ao estilo do clipe “Pump It”, do Black Eyed Peas. Mas a estranheza inicial dos números musicais logo vai passando, à medida em que eles deixam de ser “gratuitos” e vão sendo levemente incorporados à trama, principalmente como números da escola de dança chefiada por Fernanda (Marisa Orth), local neutro. É lá que jovens dos dois lados se misturam e ganham um espaço – mesmo que momentâneo – de folga contra a dura realidade cheia de armas e drogas que fica do lado de fora de seus muros. E é lá também que o amor entre Analídia e Jonatha vai crescer e se consumar. Mais até do que o simples tesão, um representa para o outro a esperança de uma vida longe daquilo tudo.

 

Muito bem filmado, com câmeras e montagem ágeis, e ótimo trabalho de direção de arte, Maré peca no que poderia ser – nas canções que estão muito artificiais; nas disputas armadas que não combinam com as danças e poderiam ficar no subjetivo, assim como a cena de amor entre Analídia e Jonatha. Caricaturizar, ou não mostrar, tudo isso poderia tornar a mensagem ainda mais forte. Mas são escolhas pessoais da diretora, que sai do filme com crédito, pois conseguiu juntar no mesmo balaio a cultura do hip hop, dança de rua, grafite e ainda descobrir novos talentos em todas essas áreas. Não é pouca coisa.

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